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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A Traição do Padre Martinho


Bernardo Santareno encarna na perfeição o espírito do autor comprometido com o seu tempo, com a sociedade que o representava. Sem dúvida alguma um dos dramaturgos mais importantes da Literatura Portuguesa do século XX, quer pela pertinência das suas peças como pela denúncia que as suas personagens espalhavam.
"A Traição do Padre Martinho" coloca em cena um conflito de classes entre o povo e o poder económico, representado pelo lavrador e o engenheiro, proprietário da única fábrica existente no Cortiçal. O padre Martinho, cristão convicto, procura ajudar os paroquianos naquilo que puder, sobretudo nas questões profissionais. Essencialmente crê como sua obrigação impedir que as pessoas da aldeia sejam exploradas e por isso ajuda-as a lutar pelos seus direitos, facto que conduz a algumas greves e paralisações que muito desagrada o engenheiro.
Se por um lado temos um padre que luta pelo povo, por outro temos um vigário que luta pelos poderosos, uma vez que são estes que reabilitam as igrejas, mesmo que muitas vezes não as frequentem. Na verdade, o padre Martinho assume-se um quase marxista-cristão, categoria que não é tão absurda, se tomarmos em linha de conta o cruzamento de ideias das duas correntes e a forma como ambas podem coexistir.
No entanto, o povo está sempre sozinho e o poder sempre acompanhado por outro poder. Quando a situação se torna demasiado incómoda, o vigário, secundado pelo engenheiro e pelo lavrador, recorre ao bispo para transferir o padre Martinho para muito longe. A situação torna-se tensa, o poder não recua, as ordens estão dadas. O povo não abandona o padre e este fica refém na casa onde vivia, a população não permite que o padre Martinho seja expulso e às tantas, o conflito passa a ser entre povo e poder, sendo que o próprio padre já não é ouvido pelas pessoas.
A tragédia está iminente e de facto acaba por acontecer no desvario do poder em enviar para a aldeia as forças da ordem para suster o povo.
Bernardo Santareno recorre a algumas técnicas eficazes, nomeadamente o uso de personagens que são porta-estandartes neutros, como também a multiplicação física do padre Martinho, quando o conflito interior atinge o ponto máximo. Outro aspecto importante é a presença do narrador, figura imparcial que torna mais verdadeira a acção.

"A Traição do Padre Martinho"
Galeria Panorama, S/D

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O homem ou é tonto ou é mulher


Um homem que tem pedras dentro dos bolsos e que quer trocá-las por uma máquina de pensar. O mesmo homem tem dois livros de um filósofo que pensam por ele, mas o problema está nos pensamentos serem sempre os mesmos, um livro não pode mudar.
O homem ou é tonto ou é mulher acaba por ser um excelente exercício literário, uma espécie de roteiro da vida de um homem que disserta sobre as suas experiências. Os projectos e ambições que ele tem são magníficos, porém, o desejo estraga tudo e o desejo é o sexo. Em última análise, o sexo estraga tudo. Este pequeno livro é uma súmula de humor negro, imagens cruéis narradas com uma dose refinada de ironia que acabamos por sorrir no fim da frase, "Um dia decidi declarar finalmente o meu amor e quando cheguei à porta da rapariga ela estava mesmo a sair para o seu casamento.
É um caso típico de má sorte."
Podemos ler esta obra como uma biografia não-autorizada de alguém que não existe, uma personagem com substância, mas que ainda não existia como existe hoje. O tempo transforma as personagens e se o homem tinha 30 anos no livro, hoje terá mais. As personagens envelhecem como as pessoas, mas este homem encerra em si as características de um excêntrico: pensamentos peculiares, acções dementes, criações.
Este livro foi adaptado para teatro pelos Artistas Unidos. Compreende-se porquê, uma vez que o ritmo dinâmico permite agilizar o actor perante o espectador, quer através dos aforismos acutilantes do homem, quer através das próprias vidas que a personagem experienciou. Embora não tenha indicações cénicas ou de posição do actor (está escrita em prosa), será fácil imaginar a peça dentro do livro: as acções interiores e exteriores sugerem um espaço imaginado por cada um.
A fechar o livro um ponto que fala sobre os artistas, criando de certa forma um ponto de ruptura com os pontos anteriores. A personagem assume-se como artista (o próprio Gonçalo M. Tavares?) e expoe as angústias e os medos, o caminho inevitável para um artista: a solidão.
Uma pequena obra demasiado curiosa para não ser lida, assim como o autor, o mais interessante escritor português da actualidade e sem dúvida alguma, o mais coeso no universo das suas obras.


"O Homem ou é Tonto ou é Mulher"
Campo das Letras, 2002