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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A História me Absolverá


Há livros que falam da sinceridade e outros preferem falar com sinceridade. No caso do mítico livro de Fidel Castro "A História me Absolverá", pertence, sem dúvida alguma, ao segundo grupo mencionado.

Nem todos as obras que partem de um eu reflectem exactamente a pessoa mais isolada da gramática, alguns são efabulados, outros serão exagerados, outros omissos, alguns negativos, etc. Perante as páginas deste testemunho histórico somos confrontados com uma honestidade que constrange o leitor porque é apanhado de surpresa, raras vezes encontramos sinceridade numa obra que tem como figura central uma pessoa de poder ou de proto-poder, na medida em que é preferível adornar as afirmações pensando já no futuro cargo.

Como já tinha visto no "Biografia a Duas Vozes" de Ignacio Ramognet (ed. Campo das Letras) e no filme "El Comandante" de Oliver Stone, Fidel Castro jamais recusa responder às perguntas feitas, assim como não nega o bem e o mal praticados. Acima de tudo, Fidel Castro assume os erros que cometeu, assume a responsabilidade de decisões polémicas, partilha a glória e as conquistas do povo cubano.

Neste livro, Fidel Castro defende-se perante os tribunais de Fulgêncio Batista (por isso aconselhável a pessoas do Direito e da Lei), após ter sido capturado em acções de guerrilha e tentativas de depor o ditador Fulgêncio. Em certos momentos, a defesa de Fidel é inexorável e sublime, abraça o povo e os ideiais socialistas, renega a influência norte-americana e entrelinhas, deixa a sugestão da revolução vitoriosa de 1959. Este livro tornou-se o manifesto da reistência, fruto das denúncias e ataques realizados por Fidel à venalidade do regime de Fulgêncio Batista. Ao longo da auto-defesa, Castro enumera ilegalidades, corrupções, violações, abusos de poder. Revela números e casos de corrupção praticados pelo ditador e pelos seus esbirros.

Quer se goste ou se odeie Fidel Castro, uma certeza podemos ter: a sua figura carismática é incontornável e com certeza ocupará para sempre um lugar na História mundial.


"A História me Absolverá"

Editorial Presença, 1970

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Engenho


Uma grandiosa ode à liberdade, um poema cuspindo contra os ditadores e a opressão, um lamento pela prisões em cada rua.
Nesta obra escrita em prosa e poesia - mas considerado poema pelo autor -, Reinaldo Arenas, um dos intelectuais dissidentes mais conhecidos de Cuba, explora o lado obscuro do regime cubano, através da descrição do "recrutamento" de jovens para o trabalho nas plantações de açúcar. Na verdade, este é um trabalho escravo, onde as horas diárias de produção chegam às 16. Extenuados, os jovens apenas podem aspirar à morte por cansaço ou ao apagamento da mente, deixar de imaginar o futuro, embrutecendo-se entre canas e açúcar que adocicarão os lábios dos senhores e reis do mundo.
Este não é apenas um poema contra a escravatura, acima de tudo, é uma obra sobre a história da escravatura, dos africanos que foram levados para Cuba e aí pereceram sob o peso do chicote e das horas perdidas a carregar pedras. É um poema que aproxima a escravatura actual da antiga, daquela que sustentou os Descobrimentos e tornou as sociedades europeias ainda mais civilizadas, onde os jovens - dissidentes, pequenos criminosos, gays, etc. - eram conduzidos àqueles campos de reeducação. Pretendia-se transformá-los em revolucionários e protectores do regime; acabaram escravos, acabaram mortos, acabaram exilados.
Reinaldo Arenas enfatiza a falta de esperança para os jovens - porque são o futuro do país -, aquele caminho que subitamente é cortado e de repente, apenas um abismo aos seus pés: pátria ou morte. Apenas o mar é imagem de liberdade, tem a imensidão que caracteriza o infinito, é a fronteira para os EUA.
Embora adepto da Revolução (no seu princípio), rapidamente fica desiludido com as consequências: perseguido por ser homossexual, os seus textos são vigiados, a sua liberdade termina numa prisão. Porém, depois da agonia da desesperança e da dor, da humilhação, Reinaldo Arenas consegue embarcar para Miami, onde morre mais tarde num apartamento, assistido pelo seu companheiro.
Mas como o próprio diz em O Engenho, a propósito da liberdade:

procuramos-te ainda
procuramos-te sempre.


"O Engenho"
Antígona - Editores Refractários, 2006

"Antes que Anoiteça"
Edições Asa, 2ª edição, 2001

"Antes que Anoiteça"
Filme sobre a vida de Reinaldo Arenas
Realizado por Julian Schnabel, 2001