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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Fernão de Magalhães, O Homem e o seu Feito


A escolha de livros e a relação que temos com os escritores pode ser uma forma de circum-navegar o mundo, atravessamos o tempo e toda a geografia é simbólica quando temos na mão a cultura japonesa ou os costumes eslavos. Circum-Navegar.
O livro "Magalhães - O Homem e o seu Feito" concentram duas personagens cativantes da História Universal. O autor, Stefan Zweig, foi um humanista à maneira de Erasmo de Roterdão ou Damião de Góis. Erasmo foi perseguido pelo poder e por uma sociedade obscura; Damião de Góis foi acossado (e talvez morto) pela Inquisição; Stefan Zweig foi feito personna non grata pelos nazis, a sua ascendência judaica era proibitiva para a nova ordem mundial. A outra grande personalidade desta obra é Fernão de Magalhães, o qual sempre acreditou numa certa esfericidade da Terra, facto que o poderia ter levado à fogueira.
As obras deste escritor austríaco estão marcadas pelo profundo humanismo com que insufla as suas narrações, mas também pela paixão da investigação. Se é possível notar uma certa parcialidade motivada pela admiração, não é menos verdade que Stefan Zweig não sacrifica a verdade ao seu gosto pessoal. Narra com paixão, mas com dados históricos.
Em "Magalhães" encontramos um homem obstinado em circum-navegar o planeta, um homem intransigente que não se verga perante afrontas e tentativas de traição, ao mesmo tempo, não se coloca acima do feito, sabendo que as descobertas da sua missão revolucionariam o mundo - ainda por cima controlado pelo Papa -, não deixou de ser um homem discreto e comedido.
Por vezes o estilo de Zweig pode parecer pouco histórico, uma vez que tende a poetizar os factos e o seu pensamento é visível em cada linha. Para além de historiador, é igualmente um homem preocupado com a Humanidade, por isso vê a História como um campo que pode aludir às "pequenas personagens" dos grandes feitos. Não é o caso, claro está, Fernão de Magalhães, ao serviço da coroa espanhola, roubou ao planeta um dos seus mistérios e descobriu o estreito que permitiria a passagem do Atlântico para o Pacífico.
Curiosamente, este estreito pouco foi usado depois da descoberta de Magalhães, mãos pouco habilidosas conduziam os navios contra os rochedos e a tripulação à perdição. Mas o mundo já era outro e nenhuma mesquinhez conseguiu roubar a glória eterna ao navegador português.


"Fernão de Magalhães - O Homem e o Seu Feito"
Assírio & Alvim, 2007

O Presidente


Um texto curioso logo pelo título: "O Presidente". Na verdade, ao longo do texto, Thomas Bernhard coloca no centro da acção e como grande impulsionadora das vidas alheias, a mulher do presidente. É esta personagem que disserta sobre os "hipotéticos" problemas da democracia ditatorial conduzida pelo seu marido.
A mulher do presidente é uma personagem patética e ao mesmo tempo profundamente melancólica, fala constantemente para uma alcofa vazia - o cão fora morto num atentado -, nos seus monólogos as outras personagens são convidadas a falar, mas sem espaço para o fazerem, uma vez que a presidenta fala em torrentes magníficas de disparates, resignam-se a um espaço interior que as desumaniza lentamente. É perceptível uma cisão entre classes sociais, a mulher do presidente e a criada (Senhora Feliz) representam os pólos opostos: a primeira decide o que a criada veste, o que diz, decide ainda sobre a forma como a criada deve viver; por outro lado, a criada limita-se a ser gente porque ainda veste as roupas que a sua patroa já não usa. É gente em último grau.
"O Presidente" é uma peça em cinco actos, dois dos quais passados em Portugal, aqueles em que o presidente se diverte a manipular a sua amante, uma actriz de segunda que apenas vive na sombra da sombra do estadista. Portugal acaba por ser retratado como um último paraíso europeu, a grande varanda para o Atlântico, os vícios e os prazeres no Casino do Estoril.
Thomas Bernhard não escolheu Portugal à toa - como podia? -, pois conheceu-o muito bem, em dois períodos distintos: revolução e pós-revolução. Assim como na sua peça o ditador cheira a ameaça de uma revolução, em Portugal uma revolução acabara de acontecer.
Não faltam adjectivos para caracterizar o espírito acintoso deste autor austríaco (nascido na Holanda), assim como a perturbação que percorre toda a sua obra. Uma peça de ritmo difícil pela pontuação, mas soberba pela descrição de uma ditadura em decadência.


"O Presidente"
Livros de Areia, 2008

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O Tempo e o Quarto


Uma festa que não tem fim porque os convidados voltam atrás. Um homem vem à procura do relógio que julga ter esquecido naquela casa; uma mulher que está na rua e entra em casa porque julga estarem a falar dela; um homem que aparece e revela o nome da mulher que estava na rua. Aos poucos vamos sabendo nomes e histórias das personagens, a forma como todos se cruzam. Aos poucos somos convidados a entrar na obra e na festa, que entretanto já se transformou num desenrolar de memórias, histórias de amor amargas e não correspondidas.
Ao que tudo indica, Julius e Olaf são os anfitriões da festa e em última análise, da própria casa. O primeiro está habituado a falar e a questionar a vida e os outros, enquanto que Olaf é um homem habitado pelo silêncio, o seu e o dos outros, prefere não ouvi-los e foge quando alguém lhe dirige a palavra.
São os leitores-espectadores, os responsáveis por construir um puzzle de emoções e de indícios que constituem as personagens, uma certa confusão abunda naquela casa e num dado passado em que as personagens se cruzaram.
Para além da casa, apenas a rua de que falam, e o resto do cenário é sóbrio e reduzido. O cenário não é importante, mas sim o conflito que se espalha e se insinua com o tempo.
Numa segunda parte da peça ficamos a saber que algo estava invertido inicialmente, as personagens afinal têm outras histórias, a casa não é de Julius e de Olaf, a mulher (Marie Steuber) que estava na rua afinal não é uma forasteira.
O tempo é uma presença muito relevante nesta peça de Botho Srauss, não-só pela ponte criada entre o presente e o passado, como depois entre o passado e o presente (novamente a inversão). A única coisa que parece ser negada é o futuro.


"O Tempo e o Quarto"
Relógio D'Água Editores, 1993