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terça-feira, 17 de novembro de 2009

O Último dia de um Condenado


Este romance de natureza epistolográfica retrata a angústia de um condenado à morte, apodrecendo no chamado corredor da morte. A personagem principal (suposto autor das cartas que mais viriam parar às mãos de Victor Hugo) é um homicida condenado à pena capital que vai descrevendo o seu quotidiano e a forma vã como ainda aguarda um indulto.
O condenado vai sendo transferido de celas e, à medida que a execução se aproxima, estas vão-se tornando cada vez mais desconfortáveis e pequenas. O terror mental começa a surtir efeito porque ele já não domina a razão e entra em pânico com o aproximar do dia. Os seus pensamentos são dirigidos à sua pequena filha, sente misericórdia por ela, saudades, mas teme igualmente que no futuro tenha vergonha por ter o nome do pai, um nome de assassino.
A introdução de outras personagens serve para aumentar o conflito, nomeadamente a visita do padre, as conversas com outros prisioneiros, verdadeiros criminosos sem escrúpulos, homens que retiram vidas apenas porque não sabem fazer outra coisa. As visitas de carcereiros ou do chefe da prisão estimulam o pânico, na medida em que a vida não era valorizada e o condenado que escreve será o próximo a perder a cabeça na praça da vila, rodeado por populares que levam os filhos em passeio, afinal será um dia de festa.
Antes de morrer ouvirá uma jovem rapariga cantar uma música sinistra, ao longo de vários dias, uma bela voz com palavras tão amargas. Tentará igualmente, através de um estratagema engenhoso, ludibriar um carcereiro, levando-o a aceitar trocar de roupas. Por momentos quase conseguiu.
Victor Hugo escreveu esta obra para que pudesse ser um manifesto contra a pena de morte, uma voz praticamente isolada na Europa, tendo em conta que o Humanismo não seria prática corrente.

"O Último Dia de um Condenado"
Prefácio, 2002

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Pedro e João


Em “Pedro e João” Guy de Maupassant explora a relação tensa entre dois irmãos, sobretudo depois de um deles (João) receber de herança 20 000 Francos, provenientes da morte de um amigo dos pais. Maupassant desenvolve esta problemática de uma forma muito equilibrada, nomeadamente no ritmo de revelações e agravamento da relação, como na própria estrutura do romance, onde o tempo e espaço são desenvolvidos de maneira muito calma, pese embora o destino que paira sobre cada um.
Guy de Maupassant, discípulo oficial de Gustave Flaubert, oscila entre o Naturalismo e o Realismo, quer criticando socialmente a Paris oitocentista, como aproximando-se de análises psicológicas das personagens. A forma de o fazer é muito diversa da desenvolvida por Dostoiévski, uma vez que este era mais denso e violento nas suas construções, claro está que o facto de um ser francês e outro russo explica as diferenças entre os dois. No entanto, Maupassant opta por um caminho mais limpo, por cargas psicológicas menos exaustivas, colocando o indivíduo na sociedade e assim criticando os vícios de todos através de uma só personagem.
Neste romance de 1888, o autor coloca dois irmãos em confronto, como dois blocos distintos que rivalizam por um lugar de destaque entre a burguesia pavoneante. Pedro (médico) perde quase sempre para João (advogado), quer nas preferências dos pais, como de uma viúva que paira em busca de um futuro marido. Por isso Pedro comunga das cervejas e dos antros sebosos dos marginais que circulam pelo cais; recebe com encanto o licor de cereja que Marowsko, emigrante polaco, lhe oferece. Com todos se identifica, à excepção daqueles que lhe são próximos: despreza o irmão pela popularidade; odeia o pai pela sua capacidade inata de ser estúpido; passará a sentir-se enojado com a presença da mãe por… É necessário ler o livro para saber esta razão!
É um romance de vícios, de paixões desmedidas e dicotómicas, um romance de terra e de mar. Um romance essencial da literatura francesa do século XIX.
Para além do romance, Guy de Maupassant oferece ao leitor um ensaio curioso sobre a obra, sobre a profissão de crítico literário e suas falhas nos critérios, na forma acéfala como aqueles analisam as obras. Ao mesmo tempo, Maupassant traça de uma forma muito simples a sua poética e isso podemos encontrar nas páginas que se seguem, ou seja, neste romance e em outras obras do autor.

Pedro e João”
Editora Arcádia, 1960